(o azul e branco, os desenhos apresentados como se de folhas grandes e soltas se tratassem, a falta de ordem na disposição: tudo uma tentativa de viver na ilusão de outro tempo, o tempo que ainda habita a minha ideia)
Le Corbusier apelidou em tempos, durante um ataque de loucura ainda hoje por explicar, a casa como uma «máquina de habitar». É claro que a contradição dos génios faz perdoar todos os devaneios, pois quando definiu o Purismo a máquina já não se habitava: a máquina emocionava. Aqui penso que esteve mais perto da questão que interessa. Se pensarmos bem não há outro objectivo que o arquitecto persiga. Tudo com jogos de cintura para fazer acreditar que é a satisfação do cliente a meta a atingir. Nada disso, como sabemos. Todas as paredes traçadas; todos os vãos abertos; todos os ângulos previstos só têm como finalidade a emoção primitiva do futuro utilizador. Aliás, chamar utilizador ao habitante é um bom espelho do estado da arquitectura actual. O utilizador, como em user, e então Corbusier poderá ter tido razão antes de tempo. Voltando ao cerne de toda a problemática: um edifício que não emocione não serve. Não me serve, mas perdoem esta minha obsessão de observar o mundo através dos meus olhos. Em vez de «utilizador» deveríamos usar a palavra «espectador». Politicamente incorrecto, levantaram-se já as vozes da razão. A arquitectura não se vê, vive-se. O truque consiste em tornar a «vida» num fenómeno inteiramente estético. Como? Transformando algo tão bruto e agressivo como a construção em momentos de verdadeira revelação, quando a respiração nos atraiçoa e o batimento cardíaco perde o passo.
O volume em tijolo aparente, de dois pavimentos, encaixa-se no bloco térreo revestido por massa raspada na cor azul. Esses elementos somam-se ao concreto, que define os pórticos das varandas. E marcam os contornos desta residência com privilegiada localização, entre a praia e parte da mata atlântica.
Com quase 500 metros quadrados construídos, a casa foi projectada a pensar na sua possibilidade de ampliação.
A residência na praia de São Pedro, Soltroia foi implantada em loteamento onde as construções dependem de autorização do Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. Entre os cuidados preservacionistas do projecto estão a manutenção de árvores existentes e a não-interferência nas características do terreno, com cerca de 1 300 metros quadrados e pequeno declive.
Daí a opção de elevar a casa sobre uma laje, nivelada pelo ponto mais alto, evitando problemas com a humidade do solo.
A afinidade da proprietária com a cultura grega levou à adopção de subtis referências mediterrâneas, como a ausência de beirais, os grandes vasos espalhados pelo jardim e a pérgola em madeira, feito para dar suporte a primaveras.
"Para fazer uma casa, agarra-se num punhado de ar e segura-se com umas paredes." Parece que os irmãos Aires Mateus plasmaram literalmente as palavras deste provérbio nazarita, visto que, segurar o ar com as paredes, é precisamente o que fizeram nesta casa, belíssima, erigida fora do tempo e dentro do espaço da beleza.
Ruína sublimada. As caixas vazias
Os arquitectos referem na sua simples memória que apenas "consolidaram e repararam os antigos muros da velha casa". Eu penso que fizeram muito mais: tornaram-nos sublimes.
A caixa dupla envolvente era inicialmente uma ruína silenciosa. E deram-lhe voz. Criaram valor manipulando-a, abrindo-a e fechando-a e unificando-a com uma radiante cor branca.
E colocaram um chão de madeira, que como uma bandeja, leva a que as peças se revistam de uma maior presença. E no fim encheu-se de luz. Assim tem tudo um certo ar metafísico que nos faz lembrar algumas imagens de De Chirico. Com uma força impressionante.
Quando uma ruína conserva os seus muros com uma materialidade tal capaz de prender o ar e a luz, quando ainda nela a gravidade constrói o espaço, a arquitectura revela-se, despojada de tudo, na sua forma mais radical. A pura nudez da estrutura costuma ter a poderosa força da arquitectura mais essencial. Assim o fazem alguns muros de muitas ruínas romanas que nos comovem. Assim o fazem os muros das caixas vazias desta casa.
O céu emoldurado. A casa da água.
É provável que a qualidade mais destacada destes espaços seja a verticalidade, que se acentuou como atributo dessas duas caixas que outrora suportaram mais de um andar, e que agora estão livres em toda a sua altura. A proporção não usada, nunca pensada pelo construtor original desses muros, provoca um certo fascínio. A alta caixa da piscina, como um guarda-jóias da água ali retida, produz, quer por reflexo sobre a água quer pela sua transparência, um efeito de máxima verticalidade.
A proporção é ainda hoje, e sempre será, um instrumento eficaz para trabalhar em arquitectura. Embora se possa pensar que neste terramoto passageiro com que se agitam as actualmente denominadas arquitecturas de vanguarda, este atributo, a proporção, pudesse parecer inexistente. A proporção que é domínio da escala.
Queria observar aqui como a caixa vazia da piscina parece mais alta do que a outra onde a desproporção dos espaços intersticiais poderia levar a pensar que nestes houvesse mais verticalidade. Por outro lado, sentados dentro da caixa da água, o olhar é conduzido para cima, na direcção do céu emoldurado, trazendo a recordação do Panteão de Roma. Emoldurando o ar do céu.
A máquina fotográfica
Se analisarmos a casa de funções albergada na segunda caixa, temos de reconhecer que é um perfeito mecanismo de relojoaria, que funciona na perfeição. Mas se examinarmos a precisão com que cada peça foca a paisagem através de filtros duplos de janelas e espaços ocos, seria mais conveniente o símile da máquina fotográfica. E se dizíamos que a caixa da água se dirige para o céu, esta caixa da casa está virada para a terra.
As funções foram definidas de uma forma soberba. Na parte inferior o espaço público, para estar, cozinhar, comer, com uma visão da paisagem mais focada que emoldurada. Na parte superior a máxima privacidade nos quartos de pequenas dimensões, cada um com uma vista diferente. Como uma máquina fotográfica.
E a luz
No fundo, toda a casa não é mais do que um brilhante exercício de luz. A luz branca recortada na sombra projectada dança sobre a superfície da água escavada é uma cena que merece ser contemplada. A luz sólida desloca-se ao longo do dia sobre um fundo de luz reflectida que enche o ar que dá volume a estas caixas sublimes, e que produz efeitos da máxima beleza. Aires Mateus plasmaram literalmente as palavras deste provérbio nazarita, visto que, segurar o ar com as paredes, é precisamente o que fizeram nesta casa, belíssima, erigida fora do tempo e dentro do espaço da beleza.
Andando pelas ruas antigas do centro me sinto como se percorrendo as entranhas de um organismo em irreversível decadência. Resistem, ocupando o térreo dos pardieiros deixados ao deus dará, algumas poucas lojas cuja clientela é formada por funcionários de repartições municipais. Não entendo que o crescimento da cidade seja a causa do abandono e pelo transplante da antiga efervescência das ruas para os shoppings, estas caixas de vidro e aço batizadas em outro idioma, como se tivéssemos vergonha do nosso.
Exceto pelos turistas, bandos coloridos com suas máquinas fotográficas, são poucos os transeuntes e quase todos vão cabisbaixos. Não lhes vejo os olhos, e não os vendo é como se não existissem, não lhes vejo sorrindo, e é como se não fossem humanos, não lhes ouço as vozes, e é como se fossem fantasmas vagando a esmo.
Mas como não me apetece ficar todo o tempo confinado em meu pequeno quarto fechado para o sol, nem percorrer os anódinos corredores de mármore das caixas comerciais, diariamente desço à rua e sigo até o Pelourinho, o patrimônio da humanidade onde os sobrados foram reformados, e tenho a sensação de estar em um cenário e de que tornamo-nos figurantes de uma farsa absurda tangida por polifonias exógenas. Mas é menos mal que o abandono.
Hoje tomei uma mesa de lata desequilibrada posta na ladeira sobre as pedras irregulares do calçamento, mas não havia café, me advertiu o garçom com peruca de tranças e modo mariolado, pedi uma água gasosa para aquietar o cansaço, recobrar o fôlego. Lamentei não ter levado um livro onde me alhear desta realidade que fere a minha convicção na possibilidade de um progresso que não seja erigido sobre os escombros da tradição.
Não faz muito tempo, li um conto de Adonias Filho e fui até o Largo da Palma com esperança de encontrar “A Casa dos Pãezinhos de Queijo”. É evidente a grande possibilidade de que nunca tenha existido, exceto na imaginação do escritor, mas já não existiria se tivesse sido um dia realidade.
Na mesa ao lado um gringo apalpou uma púbere prostituída e fui invadido por uma desagradável sensação de impotência para enfrentar a afronta, que de tão corriqueira foi aceita com naturalidade pelos demais circunstantes, como se a prostituição infantil não fosse o mais hediondo dos crimes. Deixei sob a garrafa uma cédula de cinco. A angústia para escafeder-me dali era maior que a necessidade do troco, conquanto me possa fazer falta até que seja creditado o parco provento da aposentadoria.
Estive economizando para comprar um chapéu novo, mas já está difícil encontrar chapéus decentes por um preço razoável, chapéu agora é uma anomalia disponível apenas para velhos endinheirados, fiquei com o velho panamá de fibras esgarçadas e torrei os cobres em livros no Sebo Brandão. Há muito vinha namorando um volume das Obras Completas de Federico Garcia Lorca, de quem conhecia uns poucos poemas traduzidos por Manuel Bandeira. Agora, depois de velho, dedico as longas e solitárias tardes ao esforço de decifrar suas metáforas flamencas e tenho o sono invadido por sons de violinos ciganos e pelo sangue andaluz tingindo o crepúsculo.
Já não são mais que lembranças os dias em que me vestia a rigor, de linho alvo, e freqüentava os salões de dança e o cassino do Palace Hotel, noites de farra e de lubricidade, encerradas nos melhores bordéis da cidade. Eventualmente me assalta uma libido, mas eu não soube fazer um pé-de-meia e não sou suficientemente tolo para supor que alguma mulher possa se interessar em dividir a cama comigo apenas pelos meus belos olhos. Durmo cedo e acordo antes que cante o galo.
Nunca me casei nem mantive qualquer relacionamento duradouro. A família que me resta são alguns sobrinhos, filho do meu único e falecido irmão, mas não lhes sei o paradeiro e ainda que soubesse não é da minha natureza querer que se apiedem de mim.
Aqui, neste cortiço, há gente de toda a espécie. Tratam-me amiúde com respeito e é o quanto me basta. Eventualmente um vizinho passa para um dedo de prosa, côo um café ralo e sirvo amargo pretextando miséria: é sábio exibir indigência onde a vida não vale um tostão. Quando me mudei para este quarto vendi toda a mobília do antigo apartamento e deixei paga a sepultura no Campo Santo, trouxe apenas alguns livros, pouca roupa e um aparelho de televisão, não levou uma semana para ter a porta arrombada. Como não levaram livros nem roupas não fiz estardalhaço e tenho vivido em paz e sem tv.
Com a idade descobri que Deus é uma necessidade, nenhuma outra força é capaz de nos dar proteção maior. Tenho conhecido muita gente que se abstém de enveredar no submundo criminoso pelo temor dos supostos castigos após a morte. Pus uma gravura da Santa Ceia sobre a cabeceira da cama e tenho orado com fé para que seja preservada a credulidade humana. Tendo escrito isto, me recordei de uns versos de Fernando Pessoa, ditos pelo heterônimo Ricardo Reis: “Só os deuses socorrem / Com seu exemplo aqueles / Que nada mais pretendem/ Que ir no rio das coisas”. É assim que me sinto agora, como se me fosse suficiente ir no rio das coisas.
Quando eu era jovem arriscava escrever versos, mas não eram bons. Fui educado em escola pública, no tempo em que as escolas públicas eram melhores do que as privadas. Naquele tempo a poesia era popular e quase todo mundo sabia recitar de cor poemas de Castro Alves, de Olavo Bilac, de Camões. Eu era particularmente afeiçoado pelos sonetos de Camões. Somente nos anos sessenta foi que conheci a poesia de Fernando Pessoa e dos seus heterônimos, foi como descobrir no firmamento uma nova constelação.
A única ambição que ainda tenho é a de mudar para um quarto com janela para a rua, ainda que da janela do meu quarto não seja possível divisar nenhuma tabacaria, mas poderei ter um pouco de luz solar e de luar e será possível cultivar alguma flor e esperar a visita de pássaros.
O verdadeiro, o bom, o inigualável é simples e é sempre idêntico a si mesmo, seja qual for a forma sob a qual ocorre. Pelo contrário, o erro, sobre o qual sempre recairá a censura, é de uma extrema diversidade, diferente em si mesmo, em luta não apenas contra o verdadeiro e bom mas também consigo mesmo, sempre em contradição consigo próprio. É por isso que em todas as literaturas as expressões de censura hão-de ser sempre muito mais que as palavras destinadas aos louvores.
Johann Wolfgang von Goethe, in "Máximas e Reflexões"
Eu não sei ao que todos podem estar sujeitos, lendo algo sobre a
minha vida, mas se você aprecia a sensação livre e de colocar comentários ou
questões.
Não esqueça de se registar no fundo da página, se quiser ser notificado quando um
novo texto ou imagem é colocado no blog!
Eu também sou um visitante no
GuysFeaturedBlog. Não traga os seus vírus para aqui faça sempre
uma revisão. Você será sempre relatado